A toda a volta, este vale de Albergaria é fechado por altas muralhas de montanhas, que, sobretudo para nascente, formam um cenário de grande decoração: o Lagedemos, cónico e aguçado como um pico vulcânico; o Pé da Reigada, semelhante a uma coroa carolíngia; o Cartacho, formidável fortaleza medieval cheia de torres derrocadas, arcos partidos, cubelos, e vertiginosos panos de muralha a prumo sobre o vale.
Geira
Estes altares de granito, glaucos e rosados de tão limados que estão, de tão polidos pelo vento, pelas chuvas e pelas neves, dão uma solenidade mágica à vigorosa floresta que alastra pelo vale, sobre as encostas, trepa pelas fendas abertas na parede, e de novo se espaira em planos mais elevados, e volta a formar maciço em cada degrau do anfiteatro. Assim como delimitam o vale, parece que igualmente o fecham no tempo; cá em baixo, na solidão da floresta, ante o rumorejar das águas, sobre as alfombras dos musgos, a alma do caminhante sente-se recuada nos séculos, e involuntariamente evoca as denaidas entre aquele improfanado cenário druídico. O vale está riscado de bons caminhos, entre eles um trecho da antiga calçada romana de Braga a Astorga, denominada Geira.
A zona mais acessível e interessante da serra do Gerês é a parte florestal da bacia do rio Homem, entre a Portela de Leonte e a Portela do Homem. Local a visitar sempre – Albergaria.

Um pouco antes da Portela de Leonte há uma formosa cascata ou frecha como dizem os serranos. Junta-se por esta altura o carvalhal que de ambos os lados vinha descendo do alto. É através desse bosque primitivo que segue a nova estrada.
A Portela de Leonte (875 m de altitude) é um verdadeiro desfiladeiro tendo tanto do lado do poente (Pé do Cabril) como do nascente (maciço da Borrageira) imponentes massas de rochas por onde a vegetação aproveita todas as fendas. (O Gerês, afluente do Cávado, e o Leonte, afluente do Homem, têm as suas nascentes junto dessa portela.) Na descida, ouvem-se a cada passo os sussurros das cascatas.
Entre os flancos da Bergiela e de Corneda, coroados de imponentes massas, a ribeira de Leonte debate-se entre tumultuosas penedias.
É “…em Albergaria que se encontram os mais impressivos aspectos da floresta.” O vale é fechado por altas muralhas de montanhas, que, sobretudo para nascente, formam um cenário de grande decoração: o Lagademos, cónico e aguçado como um pico vulcânico, o Pé da Reigada, semelhante a uma coroa carolíngia, o Cantarcho, formidável fortaleza medieval cheia de torres derrocadas, arcos partidos, cubelos, e vertiginosos panos de muralha a prumo sobre o vale.
Estes altares de granito, glaucos e rosados de tão limados que estão dão uma solenidade mágica à vigorosa floresta que alastra pelo vale, sobre as encostas, trepa pelas fendas abertas nas paredes, e de novo espraia em planos mais elevados, e volta a formar maciço em cada degrau do anfiteatro. Assim como delimitam o vale, parece que igualmente o fecham no tempo; cá em baixo, na solidão da floresta, ante o rumorejar das águas, sobre as alfombras dos musgos, a alma do caminhante sente-se recuada nos séculos e involuntariamente evoca as daliaidas entre aquele improfanado cenário druídico.
O vale está riscado de bons caminhos, entre eles um trecho da antiga calçada romana de Braga a Astorga (aqui conhecido pelo nome de Geira). Em vários pontos – Portela do Homem, Albergaria, Ponte Feia, etc. – há marcos miliários, com inscrições. Na solidão da serra, dir-se-iam sentinelas sobreviventes de um exército morto, agrupando-se uns contra os outros, como para se protegerem da solenidade e do silêncio.
O que é inolvidável neste percurso é a impressão de beleza e de solidão. A floresta com os duros e arrojados remessos de penedia oferece a cada passo estranhas sugestões de pujança selvagem e originária. Nesse género de paisagem não deve encontrar-se em Portugal nada de comparável. É ver, por exemplo do alto de Palheiros, o carvalhal de Beringela ou os maciços de penedia, ao mesmo tempo caótica e escultural que se sobrepõem no sítio impressivo de Albergaria. Em certos instantes, tem-se a impressão de que vai surgir do interior da serra a figura de algum atiacoreta ou o vulto solene de Zaratustra.