Vilarinho das Furnas

O vale deste rio, a princípio amplo e todo cultivado, estreita-se e despoja-se da sua roupagem de verdura. As águas vão ganhando um ritmo apressado e inquieto. A uma paisagem familiar e repousante sucede a agitação dum mundo novo e vigoroso, que se ergue cada vez mais nos cimos descarnados. Conforme nos aproximamos de Vilarinho, as águas tumultuam e bramem de encontro às fragas, escavadas e poídas pela erosão. Nas encostas, cada vez mais íngremes e pobres, rareiam as culturas e os homens. Um silêncio estranho, que só as águas do rio quebram, domina a natureza. À ribeira alegre, fértil e cheia de vida, sucedeu a montanha, solitária e serena.

Vilarinho das Furnas

Vilarinho das Furnas – uma aldeia comunitária, da autoria de Jorge Dias, é publicado em Portugal em 1948 e reeditado em 1981, quando a aldeia já não existia. No prefácio Orlando Ribeiro escreve:

Vilarinho da Furna não existe mais; não declinou por abandono dos habitantes, mas porque uma barragem a meteu debaixo de água que submergiu leiras e casas e até o cemitério situado na parte mais alta da aldeia. Nem os mortos escaparam e dos vivos ninguém cuidou; pagas de indemnizações irrisórias, cada um se amanhou como pôde, enriquecendo-se o país de electricidade, atirando para as incertezas da vida os seus vizinhos. E, no entanto, estas aldeias comunitárias viviam numa nobre pobreza, onde os habitantes se sentiam efectivamente senhores do que cultivavam e colhiam e geriam em comum os seus interesses colectivos.

Rio HomemPerto da confluência do ribeiro das Furnas com o rio Homem, o vale alarga-se novamente, o rio acalma-se em poços fundos e transparentes e, à volta dele, terrenos férteis de aluvião, semeados de milho, batatas e feijões parecem uni oásis na imensidão das serras escalvadas.
Aqui se encontra Vilarinho, escondido entre a verdura dos seus campos e ramadas, acocorado no vale do ribeiro das Furnas, que lhe passa ao pé, em fundo leito granítico.

Esta pequena aldeia de cerca de 250 habitantes possui vastos territórios que se estendem pelas encostas da serra Amarela até à fronteira da Galiza, através de cabeços que ultrapassam 1300 m de altitude, e também na margem esquerda do Homem pequenas faixas de terrenos e pastagens em clareiras da floresta do Estado, nas encostas da serra do Gerês. Dantes, os pastos e arvoredos no Gerês eram muito mais amplos, mas os Serviços Florestais apropriaram-se deles, com grande prejuízo da economia destes povos.

A situação da aldeia e dos terrenos de cultura, expostos ao Sul e protegidos dos ventos do Norte por altas montanhas, torna possível uma policultura de tipo minhoto, em que predominam o milho e as hortas, e não falta o vinho verde de ramada e de enforcado.
Dos vastos territórios da Póvoação, só um pequeno trato de terras de aluvião junto aos rios é cultivável; o resto são pastos, em geral excessivamente pobres e só bons para cabras, situados nos vales e rias encostas graníticas da serra Amarela, muito menos arborizada que a do Gerês.

Porta para coisa nenhuma em Vilarinho das FurnasTodos os outros vales são fundos e ásperos, cobertos de vegetação rasteira que se agarra ao pouco húmus existente, deixando as rochas a nu. As encostas são alcantiladas até aos cimos arredondados ou aos planaltos levemente inclinados que, pela altitude e pobreza do solo, apenas dão magras pastagens.

Nas chás e portelas, há contudo bastante água e terra funda onde crescem fenos e ervas, excelente pasto do gado bovino. Algumas conservam tufos de velhos carvalhos de troncos cobertos de musgo. Nestes pontos, a que muitas vezes os pastores chamam «currais», pernoitam os gados e, durante os grandes calores do estio, abrigam-se à sombra das árvores, à volta das quais não faltam pasto e água.
Muitas nascentes não secam de Verão e dão origem a regatos que se avolumam com outros e vão desaguar nos dois cursos de água principais.

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