Um pouco abaixo, junto à Barragem do Carrapatelo, na margem direita do rio Douro, está um solar de extraordinária beleza. Não é apenas pelo edifício em si, mas também pela paisagem à volta. Lá em baixo, fica a barragem. Cá em cima, o solar, solitário, mira-se nas águas do Douro.
O verde da serra de Montedeiras é interrompido apenas por uma estrada cheia de buracos. Quanto à casa em si, é uma típica casa senhorial de dois andares, branca, enorme, atingida pela ruína da decadência. Está à venda. Lá dentro, já não moram nem os antigos móveis nem os seus senhores. Moram apenas dois caseiros. No fundo, o solar do Carrapatelo está abandonado. Mas há cento e quarenta e cinco anos não estava.

Nessa época, a vida ali era diferente. Nem barragem, nem caseiros, nem estrada de alcatrão, nem uma placa a dizer Vende-se. No grandioso solar, habitavam a filha e as duas netas do recém-falecido fidalgo provinciano José Joaquim de Abreu e Lemos.
“[...]Zé do Telhado, familiarizado com as estratégias militares que aprendera em Lisboa, traçara um engenhoso plano e pensara em todos os pormenores.[...]“.
Tomou todos os cuidados. Fez um reconhecimento do local. Dividiu os seus homens em dois grupos – uns entravam com ele no solar, enquanto os restantes vigiavam os caminhos que conduziam à herdade. Chegou mesmo ao cúmulo de mandar os barqueiros de Mourilhe, situada na margem oposta do Douro, atracarem os barcos no lado do solar, para que os moradores da povoação não pudessem vir socorrer os assaltados.
À hora da ceia, iniciou-se o assalto. Noite cerrada, os criados, que se aqueciam à lareira, na cozinha, ouviram alguém a bater à porta. João Carvalho, o único homem na casa, apressou-se a abrir, pensando que seria um caseiro. Mas foi surpreendido por Zé do Telhado, que lhe deu uma violenta pancada na cabeça, “[...]abrindo-lhe uma larga brecha na parte anterior e direita do crânio, no dizer dos peritos.[...]“.
Os bandidos logo se acercaram da cozinha. Uma das criadas, de nome Marcelina, entrou em pânico, e trepou pelo forno de cozer o pão e empoleirou-se no caniço de secar as castanhas. D. Ana Vitória, que estava no sótão, apercebendo-se de que havia ladrões na cozinha, procurou fugir pelo laranjal. Deparando-se com as sentinelas que cercavam a casa, voltou para dentro. Entretanto, no rés-do-chão, a criada Luiza Quitéria preparava-se para lavar a ferida ao velho criado. Uma das sentinelas, de nome João Ribeiro, talvez receando que fosse uma artimanha para tentar escapar, “[...]dispara-lhe um tiro de espingarda que o atinge no hipocôndrio direito (relatório da autópsia), indo cair, no dizer da criada Maria Luiza, “pelo seu lado esquerdo abaixo”.[...]“.
Zé do Telhado que estava junto das senhoras, ao ouvir o tiro, mandou um dos seus homens ao piso da cozinha e ao saber o que se passava, procurou acalmar as donzelas. Prosseguiu o assalto. Pediu a D. Ana Vitória que lhe entregasse todos os valores. A fidalga limitou-se a passar-lhe para as mãos “[...]duzentos mil reis e todo o ouro e prata que lhe pertenciam e à sua filha.[...]“. Os outros elementos da quadrilha trataram de saquear todos os bens que as senhoras traziam consigo.
“[...]Foi nesta ocasião que o avarento cobiçou o valiosíssimo anel que D. Amélia trazia no dedo.[...]“. A pedido de D. Ana Vitória, que explicou a estima que a sua filha tinha por aquela jóia, Zé do Telhado repreendeu o Avarento, devolvendo o anel. O capitão dos bandidos sabia que o falecido D. José Joaquim de Abreu e Lemos possuía uma quantia avultada de dinheiro – cerca de trinta mil cruzados em ouro – de acordo com os boatos do povo. D. Ana Vitória negou conhecer a existência de tal soma. Perante isto, os salteadores conduziram as senhoras até ao corpo do criado e, obrigando-as a ajoelhar em frente à cabeça desfeita, ameaçaram-nas de morte. Apavorada, a criada Maria Luiza, lembrou-se, “[...]Vocemecês ainda não foram ao quarto do senhor José Joaquim…[...]“. Dito e feito. À machadada arrombaram a porta do aposento do fidalgo e dentro duma escrivaninha encontraram dinheiro suficiente para encher quatro sacos. Alegres com o resultado do furto, alguns dos salteadores quiseram culminar a noite abusando das meninas. “[...]A menina mais velha estendida sobre a cama, sentia no rosto o hálito impuro do Veterano que estava prestes a manchar-lhe o rosto com os nojentos lábios e a mais nova, já cansada de lutar, acabava de cair numa poltrona.[...]“.
Zé do Telhado tinha prometido a D. Ana Vitória que nenhuma das suas filhas seria molestada. Repreendeu severamente os seus homens e, para garantir a sua segurança, fechou as meninas num quarto.
[...] Em alternativa, pode-se tomar a auto-estrada A4 até ao Marco de Canavezes. Tomar de seguida a direcção de Cinfães, atravessando a Serra de Manhuncelos, passando pela Penha Longa e descendo à Barragem do Carrapatelo. [...]