Por entre caminhos e veredas, hoje estradas, atravessando ou ladeando a Serra do Açor e de tal forma deslumbrados com a paisagem, quase nos esquecemos dos precipícios que acompanham a estrada que sai de Arganil: são 35 Km de surpresas sucessivas que terminam numa das mais antigas aldeias serranas de Portugal, o Piódão.

Dista vinte e três quilómetros da sede do concelho e situa-se num vale profundo no sopé da Serra do Açor, uma ramificação da Serra da Estrela, cujo ponto mais alto – Picoto do Piódão – atinge os 1400 m. Piódão ergue-se nos socalcos das terras agrícolas, com as últimas casas já embrenhadas no arvoredo florestal e as outras situadas sobre o ribeiro cantante que, na sua melodia permanente, ajuda à beleza do lugar.
A aldeia conquistou, palmo a palmo, a íngreme encosta, formando um presépio de xisto. Telhados espreitam por cima de telhados, para que todas as casas possam adquirir a paisagem de tão rara beleza. A ampla praça da aldeia é a sua sala de visitas, constituindo uma janela sobre o vale, a montanha e o próprio casario.
História
Foi sede do antigo concelho de Vide de Foz do Piódão, tendo passado posteriormente para o concelho de Avô. Era curato da apresentação do cabido da Sé de Coimbra. Com a extinção do concelho de Avô, em 24 de Outubro de 1855, passou a fazer parte integrante do concelho de Arganil.

No século XIX, e durante largos anos, sendo pároco da freguesia do Piódão, o Rev. Cónego Manuel Fernandes Nogueira, este criou um Seminário e, pelo seu muito saber e dedicação, contribuiu fortemente para o desenvolvimento material e cultural da freguesia.
A povoação do Piódão, e sede de freguesia, pela sua peculiaridade de construções, totalmente em xisto (paredes e coberturas), mereceu a especial atenção do Arquitecto Eugénio Correia que desenvolveu todos os esforços, para que fosse considerado imóvel de interesse público, o que veio a concretizar-se por Despacho Ministerial de Abril de 1976 e confirmado pelo decreto-lei N.º. 95/78, de 12 de Setembro.
Subindo pela escarpa abrupta em forma de anfiteatro, humildemente entalhada na paisagem que a envolve, a aldeia do Piódão mantém ainda o traçado antigo e irregular, tão característico das aldeias medievais.
No chão, nas paredes das casas, e nas lousas que lhes servem de cobertura, o xisto impera por toda a aldeia, pontilhada pelo azul forte das portas e dos frisos das janelas. A unidade da cor é explicada como consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeito: a loja do Píodão só vendia tinta de uma cor, tal era a inacessibilidade do lugar.

0 interior das casas era geralmente dividido em dois pisos: em baixo um piso amplo, a loja, destinado a guardar os produtos de uma bem organizada agricultura de subsistência; e em cima, a madeira de castanho formava as divisões que constituíam a habitação da família.
Por cima de muitas das portas da aldeia vêem-se ainda algumas pequenas cruzes, diz-se, para afastar a trovoada. No domingo de Ramos os fiéis levam um ramo de oliveira para benzer, e nas noites de tempestade, fazem com ele uma cruz que é posta em cima das brasas da lareira ou na porta principal, invocando assim a protecção de Santa Bárbara para afastar a trovoada.
As casas descem de socalco em socalco ao sabor do monte, para se alargarem então na vasta praça que constitui o centro, a sala de visitas do Piódão, onde se ergue, orgulhosamente imaculada, a pequena Igreja Matriz.
Monumentos
Num plano elevado, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição (padroeira de Piódão) sobressai do contraste com o tom escuro das paredes de xisto, dominando o largo. Trata-se de um edifício de algum valor arquitectónico, com frontaria formada por quatro finas torres cilíndricas, rematadas em cones e torre sineira de planta quadrada a meio da fachada sul. Construção setecentista, a frontaria foi reconstruída no século passado, em virtude de ruína eminente. Existe no templo uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, datada da Segunda metade de Quinhentos.

É provável que a primitiva igreja do Piódão, dedicada ao culto de Nossa Senhora da Conceição, tenha sido construída no decurso do séc. XVII, conforme apontam algumas referências. Conta-se que um dia os habitantes juntaram todo o ouro disponível e mandaram um velho pastor pedir ao Bispo de Coimbra autorização para construir a igreja. Perante tão dispendiosa solicitação, preparava-se o Bispo para recusar o pedido, quando o velho pastor, abrindo o seu barrete serrano, lhe mostrou as luzidias moedas de ouro necessárias a tal empreitada. A existência de uma escultura em calcário dedicada a Nossa Senhora da Conceição da segunda metade desse século e anterior a 1676, data da criação da freguesia, poderá também ser contemporânea da edificação da Igreja.
Anexo à igreja existiu um mosteiro, agora em ruínas. Pertencia aos monges de Cister, ordem religiosa que, reformada por S. Bernardo, teve grande influência, após a independência do reino, na evangelização dos portugueses e na recuperação de povoações reconquistadas. Na arquitectura, no ensino, no desenvolvimento agrícola – na cultura em geral – os monges influíram na vida das gentes. Os monges brancos de S. Bernardo construíram sempre os seus mosteiros em estreitos vales – benedictus montes, Bernardus valles – e Piódão era um local perfeito.
No cimo da povoação ergue-se a capela de S. Pedro. Paroquiou Piódão no século passado, e durante muitos anos, o Reverendo Cónego Manuel Fernandes Nogueira que, com o seu grande saber e dedicação, também muito contribuiu para o desenvolvimento da terra. Piódão quis homenageá-lo e ergueu-lhe um busto no coração da aldeia – no Largo. Em 1840 foi extinto, passando para o concelho de Avô, também extinto quinze anos depois.
Piódão é, assim, a aldeia mais típica do concelho de Arganil. Património nacional, encontra-se protegida dos “atentados” à sua estética singular. É o olhar do turista, que incrédulo, contempla tanta beleza. No entanto, temos sempre o outro lado – o olhar das gentes que vivem o dia-a-dia nesta terra parada no tempo. Ouvindo o testemunho dos habitantes, percebemos uma certa tristeza misturada com a alegria e o orgulho da admiração que a “sua terra” provoca nos turistas: é que as casas não podem ser caiadas e as telhas de lousa não podem ser substituídas por outras que não voem quando o clima, indiferente à estética, resolve ser mais duro.
Gastronomia
O alcatrão trouxe os turistas e levou as pessoas, os mais jovens. Ficaram os mais velhos que vão cultivando a terra, produzindo vinho que os aquece nas longas noites de Inverno, castanha para a típica sopa de castanha pilada e vários cereais. O vale abundante de água é terra fértil. Também característica é a aguardente de medronho, bem como a de mel.
Festividades
Em Agosto realiza-se a Festa do Coração de Jesus, em Setembro a Festa de Nossa Senhora do Bom Parto e no mês de Novembro comemora-se o Magusto tradicional.